sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

Dia Internacional do Deficiente Físico: há muito o que se fazer e pouco para se comemorar

Por falar em cadeira de rodas, está sendo muito interessante e curiosa esta minha experiência. Fiz "tenoplastia", é uma cirurgia destinada a pessoas que têm pé cavo, o pé muito arqueado. Futuramente poderia causar problemas e o médico optou por fazer uma cirurgia. O inconveniente dela é o repouso: 3 semanas sem tocar os pés no chão.

Fala-se tanto em acessibilidade, em inclusão social dos portadores de necessidades especiais (pne), mas um simples passeio, como pegar um cinema, pode se tornar uma grande aventura. A sociedade não está preparada para lidar com a situação. O PNE é realmente visto como um incapaz. O curioso é que onde chego de cadeira todos me questionam o que aconteceu, mesmo os que não conheço, e no intuito de ajudar, acabam nos fazendo sentirmos incapazes... Quando estou manobrando a cadeira, sempre chega alguém por trás e sem avisar começa a te empurrar. No banheiro do shopping uma usuária, ao me ver aproximar do porta papel de enxugar as mãos, já veio me "ensinar" como se faz para a máquina liberar o papel. As pessoas, em geral, são muito solícitas (o que é bom) querem ajudar, e acha que a gente não pede ajuda por vergonha ou timidez, e acabam, literalmente, nos atropelando. É uma sensação muito ruim.

Adoro passear em hipermercados, visualizar itens de tecnologia, aproveitar promoções de cd´s e dvd´s. Mas entrar nas Lojas Americanas virou um desafio. Com a chegada do natal, espalham-se gôndolas por todos os cantos da loja, inclusive obstruindo a circulação dos corredores. Resultado: em certo ponto da loja tive que começar a empurrar e remanejar caixas espalhadas com produtos por todo o trajeto. Este público precisa de mais atenção e um olhar mais aprofundado sobre possíveis soluções. São poucos os lugares que oferecem condição acessível ao PNE, e a simples mudança na fachada de um estabelecimento comercial não significa que na prática isso funcione. É preciso preparar lojistas,comerciantes e colaboradores para lidar com a situação. Certo dia, uma microempresária ao contratar serviços de mão-de-obra para adaptar seu comércio à lei que estabelece acessibilidade em locais públicos, virou-se para mim e disse "Em 20 anos de estabelecimento, nunca um cadeirante veio aqui". Quis dizer a ela que era exatamente por essa visão e mentalidade escassa é que um PNE não pôde adentrar ao imóvel. Mas, por outro lado, tendo em vista a maneira de pensar desta comerciária é que cheguei à conclusão que lá não é um local que deva ser frequentando por ninguém que tenha amor à vida e ao ser humano. Isso não é coisa de se imaginar e muito menos de se expresar diante da situação.

Conversando sobre o assunto com o Richard Lourenço, que é designer de interiores, ele comentou que teve uma edição do Casa Cor em São Paulo, que fazia com quem os visitantes vestissem roupas pesadas para andar por um trecho da exposição e depois andavam de cadeira de rodas para ter a sensação de como é viver com mobilidade reduzida, pois sentindo na pele conseguimos decifrar melhor o que sente alguém nessas condições.

Fui pesquisar o resultado do Censo 2010 para ter noção do tamanho da população considerada deficiente, e, para minha surpresa, encontrei este link http://www.deficienteciente.com.br/2010/08/nao-ha-deficientes-no-brasil.html

Não imaginei que uma simples cirurgia pudesse mudar tanto meus paradigmas e voltar a atenção à tamanha falta de estrutura para essa situação. Não bastam cartilhas de conscientização, é necessário que se tenha a ação e que todos nós aprendamos na prática a lidar com o ser humano por completo, independetemente da sua condição física.

Vasculhando o assunto na internet, constatei que hoje, 3 de dezembro, é dia Internacional do Deficiente Físico. É um dia em que devemos refletir nossa conduta e o que podemos fazer para contribuir com a causa. Uma coisa é dada como certa: há muito o que se fazer e pouco para se comemorar.

NATALIA CESCO

PRESIDENTE PRUDENTE
nataliacesco@gmail.com

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Parabéns Natalia pelo excelente artigo e aproveito para deixar a seguinte pergunta:

"Qual é a sua opinião a respeito das vagas reservadas a PNE´s?"

Abraços.

Douglas

2 comentários:

Anônimo disse...

Opinião sobre as vagas reservadas a PNEs, bom, que as vezes dá uma certa raiva pela pessoa acertar 60% da prova e ficar entre os primeiros colocados isso dá....rs... porém é merecido né, a grande maioria dos deficientes realmente apresentam alguma dificuldade, ou de locomoção para estudar, ou de aprendizagem, ou alguma outra adversa que acarreta à eles a merecida vaga como PNEs.
Então, merecida as vagas reservadas por apresentarem alguma dificuldade, mesmo que esta vaga seja preenchida com acertos na ordem de 60% da prova.
Lutem pelo seu direito, é mais que merecido.

Natalia Cesco disse...

Obrigada, Douglas, pelo espaço. Eu sempre,sempre fui a favor de cotas reservadas aos PNE´s, pois eu tinha noção do preconceito que essas pessoas sofriam. E sofrem, mesmo, em todos os sentidos da palavra, chega a ser cruel. E vivenciado o cotidiano delas percebi que o buraco é mais embaixo ainda. Durante meu exercício na Defensoria, conheci um PNE, deficiente visual. Era treinamento dos oficiais, e, no intervalo, todos saíram do auditório e ele ficou lá, à espera de um milagre e de alguém que não fosse cego o bastante, e enxergasse que ele precisava de uma mãozinha. Ele mesmo me orientou como conduzí-lo. É preciso agir com naturalidade, não é algo de outro mundo. E para encerrar, na atual condição em que me encontro, posso afirmar: há vida sobre cadeiras de rodas. Respeite isso. Respeite o "caput" do art. 5º da nossa poética e utópica Constituição Federal.